Desculpe, não temos bifanas…

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O dia foi 10 de maio de 2012. Estava eu a aproveitar meus últimos minutos em Bruxelas, quando avistei a placa de um restaurante, em boa língua lusa: “Bifanas”. A um brasileiro, tal palavra soaria completamente estranha, como outras tantas do português europeu, como passaram a chamar o idioma falado em Portugal. Mas a mim não era estranha. Após anos a ver em documentários televisivos os malabarismos que os portugueses fazem com os ingredientes, até fazer deles comida – e não comida qualquer – passei a me interessar pelos quitutes de Portugal, sejam preparados pela querida Armanda, com suas variações angolanas, seja nas rápidas e curtas visitas a Lisboa, oportunidades em que sou apresentado pessoalmente à arte culinária do país por obséquio do amigo Pedro Aniceto. Nunca tivemos tempo para pratos enormes, cuja digestão, suponho, demande escaladas mais demoradas naquele país. Mas, se minha cultura não me permite analogia mais elaborada, permitam-me dizer que o que quer que tenha comido em Portugal (ou feito por mãos portuguesas) sempre me causou sensação parecida à do crítico culinário personagem do filme Ratatouille, quando este finalmente prova o prato de um restaurante e foi remetido à história de sua infância pela simplicidade, mas autenticidade do prato. Não é que a cozinha portuguesa seja simples – é que parece-me rústica (embora exemplos não faltem de complexidade e fineza), mas sempre deliciosa e autêntica. É comida feita pra gente, e não pra meros observadores científicos. Não é que volto à infância, mas fica sempre a impressão que aquela comida é de verdade, é real, e que não há nenhum truque a nos enganar. Pois bem, por indicação do mesmo Pedro Aniceto, vi um episódio do No Reservation, onde o Tony Bourdain visita Lisboa, e refestela-se com bifanas. Depois de ter comido “pregos” em Portugal três anos atrás, tinha que provar as bifanas. E eis que, como disse, encontrava-me em Bruxelas, uma semana após ter tomado conhecimento do tal sanduiche. E, ao rondar a cidade, pronto a despedir-me, deparei-me com a seguinte placa:

 

Sim, a foto está desfocada de ansiedade...

Não pude reter a alegria, que contagiou a um americano que comigo estava e que também se interessou a provar o tal famoso sabor português, a apenas alguns metros da Grand Place. Adentro ao estabelecimento. “Bonjour”, diz a senhorita. Arrisco um “olá”, apenas para checar a autenticidade do local, e recebo-o de volta, desta vez com o indisfarçável jeito lusitano de falar. Alívio – é mesmo uma casa portuguesa. Meu amigo americano a tudo acompanha, e conseguiu entender quando pergunto pelo prato que nos trouxe até ali. É quando escuto “Desculpe, não temos bifanas.” Em um restaurante que se chama por tal…

10 Comments

  1. Pois é, além da minha vontade, fiz uma propaganda danada… 🙂

  2. Sopa de pedras? Nao, mas comi pregos! :))

  3. O termo é “Sopa da Pedra”. É uma sopa “fortíssima” (leva tudo o que se lhe quiser colocar como ingrediente!) e tem por base uma lenda (uma das mais divertidas lendas portuguesas), http://www.cm-almeirim.pt/almeirim/Concelho/Gastronomia/lenda_sopa_pedra.htm

    É típica da região do Ribatejo (Almeirim) e um dos maiores cartazes turísticos da região.

  4. E claro, no fundo da terrina haverá sempre uma pedra (normalmente um seixo de rio bem rolado) que os comensais fazem SEMPRE questão de encontrar no final da refeição. Servida em doses “industriais” é por si só toda uma refeição. (Dei aulas em Almeirim durante um ano. À segunda-feira, dia em que tinha um horário mais tranquilo e menos “nocturno”, fazia questão de me banquetear com uma “sopinha” (como lhe chamava o dono do restaurante que frequentava). Sempre que me vê entrar, (continuo a ir lá de quando em vez) o homem diz-me “Mas hoje não é segunda-feira!”…

  5. ahhaahah gostei da história!! 🙂 Eu tenho a impressão de já ter escutado, mas não me recordo de no Brasil existir a tal sopa!

  6. Todas as lendas têm clones. Temos uma muito famosa da Rainha “Santa”, esposa de D.Diniz que dava pão aos pobres às escondidas do marido e que um dia a encontrou com algo no regaço e lhe perguntou “O que levais aí, Senhora?” (Eram “alegadamente” pães) e ela abriu o regaço e cairam rosas. “São rosas, Senhor! São rosas!”. Isto é extremamente poético mas olha a minha cara de parvo quando um dia, em Budapest, entro numa igreja e vejo retratado num fresco do tecto que eles têm um milagre das rosas IGUALZINHO ao nosso, só que com intervenientes diferentes… 😉 Deve ser o franchise dos milagres!

  7. lol! 😀

  8. Tem, mas não há… 🙂 Saudades de Portugal!

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