Sagrada Família

09/11/2019
por oculos
0 comentários

Barcelona by night

Eu pensava que havia perdido a vontade de sair viajando. Afinal de contas, eu nunca fui lá tão fã de lugares como sou de pessoas. Além do mais, a burocracia para viajar de avião – controles de segurança, espera, bagagem extraviada – noves fora não ser ecologicamente bom, aliado a um crescente medo de turbulências, me desencoraja um pouco.

Mas nessa semana fui a Barcelona por razões de trabalho. Nunca havia ido a Barcelona, e pra ser sincero a Espanha deixou de ser um país que me atrai, apesar de conhecer pessoas fantásticas de lá – tudo por causa do tratamento rude que sempre tive em Barajas, Madrí.

Fiquei encantado com a cidade, ou melhor, com a excelente impressão que tive das pessoas em Barcelona. Corteses desde o aeroporto. Sorridentes em todos os lugares. Muito diferente da imagem que eu guardava de Madrí.

Mas o que me toca na vida são aqueles momentos efêmeros, que quase sempre são bons porque efêmeros, que perderiam a magia se esticados. Como quando vi aquela moça cantando no metrô…

Entrou acompanhada com um rapaz que puxava uma caixa de som, e começou a cantar. Gostei que alguém cantasse no metrô, acostumado que estou com o silêncio dos trens de Oslo e com certa nostalgia de uma bagunça, de uma desordem. Estranho eu ter gostado, eu que normalmente fico constrangido ao me pedirem dinheiro, e alguém cantando no metrô vai dar nisso… Mas gostei, pronto.

Ela chamou a minha atenção. Tinha cabelos pretos – ou será vermelhos? Cantou “Je veux”, de Zaz, que fala justamente em não querer coisas de luxo. Parecia mais autêntica ela cantar essa música do que a própria Zaz. Viver da arte, imagino, quase nunca é fácil.

Eu, ali, vindo de uma conferência onde se falava de modelos de negócio, virtualização e nuvens – não as do céu, mas as dos computadores – fui apresentado involuntariamente àquela moça que cantava tão bem que me fez feliz no metrô quase lotado. E eu não conseguia parar de olhar para ela, que cantava, sorria, e rodava pelo trem.

E então ela passou o chapéu. E detestei não ter moedas, e detestei a minha vergonha de não tirar uma cédula do bolso, com vergonha de alguém achar que seria demasiado, com receio de estar exagerando, não sei.

Saí com a moça na cabeça e a vergonha na alma.

Fui ao hotel, deixei a pesada mochila no quarto, e fui comer algo simples, que essas conferências são cheias de comida. E Barcelona, que de alguma forma me remete ao Brasil, tem alguns tesouros escondidos. Fui a um desses comer um tira gosto qualquer, tomar uma cervejinha, fingir que estava na Kina de Masú, boteco da minha Conquista.

Saí do boteco, e já havia tomado rumo para o hotel, quando avisto a moça do metrô. Sim, era ela. Fumava, e conversava com alguém. Eu não pensei – será a cerveja, ou será que foi apenas algum bom-senso, magia ou loucura que ainda restava – e fui até ela, já com uma cédula na mão, e em portunhol claro e escorreito perguntei: “posso te dizer uma coisa?”. Ela, surpresa, disse sim – e eu, com o dinheiro na mão e o coração na boca disse que ela estava maravilhosa naquele metrô, que me fizera sorrir, e que eu gostaria muito de ter contribuído com ela, mas ela se foi sem que eu o tivesse feito, e gostaria de entregar isso, a cédula, a ela.

Palosanto, boteco em Barcelona
Palosanto, fantástico boteco em Barcelona

Ela me olhava meio sem entender – foi meu portunhol? Foi a cena inesperada? Mas não sei, ela de repente se deu conta, e me deu um longo e gostoso abraço. Eu disse muito obrigado, ela, imagina, obrigado eu. E fui para o hotel.

Senhores, nada há igual à vida quando ela permite desfazer a covardia feita e fazer a loucura não-feita.


No avião de volta, viajo ao lado de uma moça muçulmana que vinha pela primeira vez à Noruega. Conversamos sobre tudo: incrível o que se pode conversar em duas horas de vôo. Houve até aquele momento do tipo “Tudo o que você queria saber de uma garota muçulmana mas tem vergonha de perguntar”.

Fiquei um pouco triste quando discutimos religião. Eu disse que era cristão, mas que tenho poucas certezas. Ela, de que o Islã não estaria sujeito a interpretações, que o Islã seria a única religião não-subjetiva.

Nesse momento ganhei a certeza que precisava: não se pode ter fé sem duvidar um pouco. Ela, um doce de pessoa, dizia que os extremistas não seriam verdadeiros muçulmanos. Acho que ela não percebeu o paradoxo de que eles provavelmente diriam o mesmo dela.

Fiquei feliz de ter conversado muito com ela e com sua amiga, mas de certa forma triste – entreguei um pouco da minha fé à dúvida, mas gostaria de ter mais fé. Mas gostaria que ela talvez tivesse um pouco da minha dúvida, porque a certeza dela significa a certeza que nos danamos todos nós outros. Não é apavorante que alguém pense que todo mundo que não tem a mesma fé vai se lascar um dia? Como alguém pode ter essa certeza?


Enfim, acho que quero viajar mais. Vai ver vejo a moça do metrô novamente, ou a moça muçulmana que ouvia Maria Gadú, ou alguma outra pessoa a me falar de fé ou que simplesmente cante…

17/05/2019
por oculos
0 comentários

The darkest hour

Antes de ler esse post, façamos o seguinte exercício mental: faça de contas que Flávio Bolsonaro tem relações com milícias, que praticou a chamada “rachadinha” e que surrupiava parte do salário de seus assessores, como suspeita o Ministério Público. Faça de contas que seu pai praticava os mesmos crimes. Faça de contas que sabia um o que o outro fazia. Fez de contas? Então vamos lá, você vai ver onde quero chegar.

Eu fui criado em uma família onde nunca faltou muito amor. Parte importante na transmissão de valores da minha família foi o meu avô. Meu avô era “das antigas”, do tempo em que o homem se colocava em segundo plano. Não tinha essa preocupação moderna de “cuidar de si, colocar-se em primeiro lugar”. Em primeiro plano estavam os deveres: dever de ser honesto, dever de prover para a sua família, dever de ajudar a quem precisa quando se pode fazê-lo. Não digo que meu avô não tinha lá seus defeitos, mas, sendo de família pobre e tendo que sustentar treze bocas, mais a sua e a de minha avó, seu norte, ao menos aos meus olhos, era feito de disciplina e trabalho.

Meu avô era policial militar. Essa combinação – família pobre, disciplina, trabalho, treinamento militar – pode fazer você pensar que meu avô era muito duro. E era. Mas eu nunca tive dúvida do seu amor pela família. O que talvez era um pouco estranho, aos olhos da moderna preocupação com a personalidade, era que, num conflito entre o amor e o dever, eu acho que meu avô ficaria com o dever. Explico: não havia muito espaço para alguns erros. Meu avô tinha tolerância zero com a desonestidade. Zero. Eu particularmente duvido que havia espaço para os dois com o meu avô: não se poderia esperar lealdade de meu avô por causa do amor, se essa lealdade pressupunha tolerância à desonestidade.

Mas não foi só do meu avô que tive essa fixação em ser correto, embora sei que, se errei de alguma forma, ou se me arrependo de alguma decisão mal tomada, foi sempre de algo que aconteceu depois que ele morreu.
Ainda que não fosse o meu avô, de alguma forma ou de outra somos condicionados a saber o que é certo e o que é errado. Escola, igrega, amigos, vizinhos, estranhos, ou mesmo, sei lá, alguma direção inata – a noção de certo e errado nos acompanha a todos, penso eu. O que talvez é diferente é a tendência a se escolher o certo e o errado. Alguns, mesmo sabendo o que é certo e errado, escolhem o erro.

Como pai, me preocupo em transmitir à minha filha a idéia de fazer uma boa escolha. Uma escolha que nem sempre vai representar uma vantagem pra ela, mas que de fato é a escolha certa. Claro, penso que ela tem que cuidar de si, tem se valorizar, mas quero crer que ela poderá escolher fazer o certo e ter uma vida eticamente responsável. Mas o fato é que me preocupo como minha filha me enxergará. Ela me enxergará como eu enxergo hoje o meu avô, ou me enxergará de forma menos lisonjeira?

Chegamos então no ponto desse post: fazendo de conta então que Flávio Bolsonaro e seu pai Jair sabem um das (supostas) tretas do outro: em que momento da vida de Flávio terá ele notado que seu pai não faz o que é certo? E em que momento terá percebido que deveria fazer como sei pai?
Em que momento terá Jair notado que seu filho não era flor que se cheira, mas teria aceito, talvez até com certo orgulho, que seu filho seguia seu próprio caminho delinquente?

Em que momento, entre as piadinhas de “tá virando homem”, ou “cuidado para não virar bichinha”, que imagino circulavam na família dos Bolsonaros, terá seu filho – terão seus filhos – escolhido levar vantagem com a política, tirar dinheiro de seus assessores, serem homofóbicos publicamente, etc.?

Veja, estou partindo de um pressuposto de que sabiam que isso tudo é errado, mas posso estar errado, e que nem todos tem essas distinções claras na cabeça. Mas a pergunta persiste: em que momento perceberam que seu pai não era o exemplo que gostariam de passar para seus filhos, mas escolheram, assim mesmo, seguí-lo?

PS – Vai ver é só ingenuidade minha mesmo perguntar essas coisas. Mas essa coisa de ser pai faz a gente ficar meio ingênuo, achando que somos nós os responsáveis por qualquer coisa que nossos filhos venham a fazer. Vai ver os Bolsonaro Jrs. nunca tiveram qualquer problema com seu pai, vai ver foi uma coincidência terem seguido o mesmo (suposto) caminho errado, ou vai ver não têm nenhuma noção de certo e errado, como assumi que todos têm.

23/02/2019
por oculos
2 Comentários

Gláucia: sejamos melhores

Ontem publiquei um post a respeito de como se despreza o rigor científico e se privilegia o próprio taco. Eis que recebi o comentário abaixo:

Gláucia, isso não se faz…

A autora, Gláucia Silvano, na crença de que isso aqui é algum tipo de espaço público onde ela acredita ser desnecessário ser educada ao interagir com os outros, comentou o post nos termos acima.

Se eu estivesse no Brasil, abriria um processo judicial, porque eu acho que é divertido ver as pessoas colocarem o rabo entre as pernas quando percebem que o mundo civilizado não tolera o comportamento animalesco de sair xingando estranhos, ainda mais quando o estranho em questão – este nada notável blogueiro – publicou um texto inofensivo.

Mas, na crença em um mundo melhor, apesar de tudo indicar que não há fundo nesse poço, narro uma certa experiência que a vida me proporcionou e ofereço à Gláucia uma escolha, como verão:

Eu sou pai de uma criança maravilhosa, e essa condição me dá certa vergonha de tudo o que é imperfeito em mim. Eu não quero transmitir à minha filha nada de ruim, nem nada que acabe por lhe impor meu modo de ver o mundo, porque na vida tenho mais dúvidas que certezas. Assim, apesar de “esquerdopata” – nisso a Gláucia pode lá ter razão – não penso em doutrinar a minha filha. Nem sobre religião, apesar de cristão que sou. Nem sobre meu gosto musical, horrível. Não espero que a minha filha tenha orgulho de mim, mas se não tiver vergonha, já me darei por satisfeito.

Meu vocabulário nunca foi dos melhores, mas agora tenho preocupação ainda maior. Palavrões, nem mesmo depois de uma topada. Tenho uma pequena que está atenta a tudo que faço, e não quero que ela aprenda palavrões. Quero que a minha pequena, de mim, tenha só bons exemplos.

Gláucia: não te conheço. Não sei se tem filhos, não sei sua profissão, nem como é sua vida. Mas se me permite: antes de ir pro inferno, que é pra onde gente como você deve naturalmente acabar indo, reflita. Quer que seus filhos tenham uma mãe que tem coragem de, em público, dizer tanta sujeira a um desconhecido apenas porque não gostou do que ele escreve ou, pior ainda, porque politicamente pensa de forma divergente à sua? Gostaria que seus vizinhos soubessem disso? Se tiver patrão, é algo que contaria a eles com orgulho? Diria isso em uma igreja? Em uma entrevista de emprego?

De repente você poderá responder a sim a todas essas perguntas, e aí será um caso perdido. Mas se, após ter refletido e tiver achado que pisou na bola, peça desculpas que retiro esse post. Eu acredito que todos nós podemos errar no calor das emoções, e o perdão é uma virtude que preciso mesmo praticar.

Mas caso queira manter a ofensa, então deixo ela aqui, imortalizada, acessível via Google a todos que quiserem saber como se comporta a Gláucia Silvano do estado de Pernambuco. Aqui poderão seus filhos, infelizmente, ao eventualmente pesquisarem sobre sua mãe, ver com que falta de educação ela rosna perante os outros. Aqui poderá um futuro chefe seu ver como você potencialmente poderia tratar um cliente. O Google não esquece, Gláucia.

Um dia pode ser que minha filhinha veja essa ofensa. É o lado ruim disso. Às vezes, ao ofender alguém, esquece-se que esse alguém tem família, amigos, colegas e chefes. É um constrangimento desnecessário. Tanto pra você, Gláucia, quanto pra mim. Talvez você não se sinta constrangida, talvez esse seja o seu normal, e talvez você opte por alimentar isso ainda mais. A mim me constrange esse tipo de linguagem em público. Em público não digo nada que não diria na frente de minha filhinha.

Mas meu conselho a você é: peça desculpas. Devemos isso a nossos filhos. Devemos lutar contra esse lobo raivoso que existe dentro de nós e oferecer a eles, ainda que falsamente, o que nem sempre somos nem temos a dar: bons pais e bons exemplos.

Gláucia, sejamos melhores.

21/02/2019
por oculos
1 Comentário

O oficial é ser ignorante

Influenciado por um amigo mais sensato e menos colérico, resolvi não me envolver mais em discussões políticas no Facebook – pelo menos não em português, já que o mar não está pra peixe e os nervos ainda estão inquietos. Não tenho um pingo de vontade de passar na cara de ninguém o quão estúpida foi a decisão de votar em um ignorante obscurantista pra presidente da república, porque nunca foi segredo pra ninguém que esse governo, ainda que desse certo, estaria dando errado. Poucos se deram a uma análise fria de que eleição não é escolher a quem se gosta, mas sim o menos pior. 

Eu vou em breve adquirir uma outra nacionalidade. Às vezes penso em renunciar à nacionalidade brasileira, não porque eu seja um boçal que deixei meu gosto geralmente brega me contaminar a tal modo que me teria levado a praticar a maior das breguices, a saber, cuspir na própria origem. Afinal de contas, não existe uma diferença entre mim, o brasileiro, e o Brasil, país. Somos um só. Mas chega um certo ponto em que a gente se permite uma certa vergonha na cara. E essa vergonha na cara é que me faz não querer ser mais condescendente com a ignorância.

Sempre acusaram Lula de fazer apologia à falta de educação (formal). Eu nunca enxerguei isso nele, mas vá lá. Mas o que dizer de tanta gente com curso universitário desdenhar da formação acadêmica e substituí-la pela convicção formada no próprio fígado? Que desprezo é esse pela única forma – ainda que imperfeita – de atestar conhecimento? 

Um exemplo, claro, é o Olavo de Carvalho – auto proclamado filósofo que se credencia a ensinar filosofia e que um monte de gente que passou pela academia aceita numa boa. Como alguém que passou pela universidade, onde o saber é provado pelo fogo, pelo debate, pela contradição, pode aceitar um oráculo? Como podem enxergar a academia como um antro de marxistas, quando o que me lembro da faculdade é justamente a pluralidade de idéias, onde existiam os positivistas, os garantistas, os do “direito achado na rua”, e por aí vai? Como alguém formado em Direito – e aqui menciono o direito apenas por ser a área da academia que conheço mais – pode confiar mais no próprio fígado e senso pessoal de justiça, quando todo o propósito da formação jurídica é a de que o direito substitui a barbárie e o senso comum? 

Como gente que viaja para países civilizados que garantem a diversidade, o respeito comum e o debate honesto podem voltar pra casa e eleger a truculência? Como se pode achar que o Brasil é tão especial que se pode dar ao luxo de querer chegar ao primeiro mundo com valores de quinto? Ou alguém já viu algum país desenvolvido se eleger com uma plataforma tão retrógrada? Vejamos: quase todo país civilizado libera o aborto, combate fortemente o racismo, o politicamente correto é norma de conduta em sociedade e minorias são respeitadas. Que arrogância é essa de achar que o país pode ir pra frente indo ao contrário disso tudo? Que quando se quer civilidade é apenas praticar mimimi?

Quando foi que as pessoas se deixaram cegar pelo próprio fígado e fazer comparações sem base concreta? Eu cito um exemplo: como alguém pode ter assistido a Dilma fazer sua própria defesa por horas no senado e ainda achar que ela é uma sem-noção apenas por causa de comentários informais como aquele da mandioca, e assim achar que esse senhor que os lidera seria mais articulado? Como achar que Lula foi o maior corrupto que existiu quando toda acusação que pesa contra ele seria uma reforma de um apartamento que ele não comprou e de um sítio que não é seu, quando só o filho do atual presidente ganhou milhões em poucos anos em atividade suspeita? Como gente que foi a faculdade se permite raciocínios tão básicos e sem sequer alguma crítica? Veja, eu não estou discutindo a possibilidade de Lula ser corrupto – acho até que aceitou sim vantagem indevida. Mas se uma história suspeita admite uma versão plausível, não passa, pra mim, de história suspeita, ao menos no que se refere a um processo judicial. Cada um que tenha sua convicção, mas direito não é feito de convicção pessoal.

Eu estou gastando essas linhas com essas mini diatribes por uma razão simples, como que fazendo rodeios: como gente que foi a uma universidade não consegue entender que um jovem morto asfixiado durante 4 minutos de tortura por um segurança é apenas o resultado desse mantra brasileiro de que “bandido bom é bandido morto”? 

Quando você diz que quando se defendem os direitos humanos não se está a pensar nas vítimas, como você então explica isso? 

Não, se o Brasil é isso, não sei se quero continuar a ser brasileiro. 

28/09/2018
por oculos
0 comentários

Do Brasil bipolar

O brasileiro sempre teve uma imagem bipolar do Brasil e de si próprio. Ora somos o pior povo do mundo – o famoso complexo de vira-lata, onde, apesar de ser um país rico e cheio de potencial, sem terremotos, tsunamis ou outros desastres naturais, não conseguimos nos desenvolver. Ora somos um país formidável, exemplo para o mundo de boa convivência entre povos diferentes, cordial e solidário.

Esse Brasil de hoje em dia, de bater em imigrante, de xingar as pessoas que discordam de opiniões políticas, de perseguir jornalista – esse, para mim, é novo. Nós, brasileiros, nunca nos vimos como xenófobos ou hidrófobos. Pois parece que, se não nos chegam os desastres naturais, chegam esses outros desastres.

Essa divisão do Brasil entre apoiadores de Bolsonaro de um lado e aqueles contrários do outro gera muito barulho, mas talvez seja necessária alguma reflexão. Quando eu vejo amigos ou conhecidos dizendo, por exemplo, que irão deletar apoiadores de Jair Bolsonaro de sua lista de amigos no Facebook, eu fico me perguntando se essa pessoa não tem aquele parente dócil, gente boa, pessoa do bem, mesmo, mas que ainda assim votará em Bolsonaro. Imagino que todos os têm. 

Eu conheço os argumentos – não de todo sem sentido – de que: premissa número um: Bolsonaro produz seus disparates, de cunho nazista – é preconceituoso, racista, homofóbico, etc.; premissa número dois: sujeito vota em Bolsonaro. Conclusão: sujeito também é preconceituoso, racista e homofóbico.

É tentadora a tese. Longe de mim querer ser condescendente com algo tão sério. Não é isso. Eu costumo achar que a verdade normalmente nunca é tão fácil ou simples. Quem vota no PT, por exemplo, como eu cogito votar, não raramente precisa produzir um raciocínio bem sofisticado para justificar o seu voto: não, não se trata de Lula ser ou não ser corrupto, se trata do sistema que o condenou ter sido parcial. Não, não se trata de Dilma ter sido ruim, se trata de uma conspiração (?) do Congresso contra ela para tomar o poder a inviabilizar. Enfim, perceberam onde quero chegar. Eu acho que se trata muito mais de conversar.

Eu não acho que todo eleitor de Bolsonaro seja racista. Perguntei a uma amiga porque votaria em Bolsonaro. Sua resposta foi que votaria nele em razão da segurança. Há um discurso de Bolsonaro que atrai essas pessoas e, convenhamos, para a tal classe média, que consegue manter a cabeça acima d’água, é a segurança a maior mazela do Brasil hoje. Não, não são homofobias. Outra, vota por causa da “família” tradicional, a quem o PT teria atacado, mas que discorda de distribuir armas. 

O problema todo é que direitos humanos foram uma conquista lenta, ainda não completada. Portanto, na cabeça de alguém que não refletiu sobre os processos históricos, direitos humanos é “dar mole pra bandido”. Entre a realidade de um século atrás, onde o abuso do Estado poderia punir qualquer um, e os direitos e garantias existentes nas constituições democráticas, foram muitas lutas e lentas conquistas. Mas essa história não pode ser resumida a contento em uma discussão de Facebook onde se quer apenas dizer que não, não torturar não é ser legal com o bandido. Há todo um processo, de Lombroso à Declaração Universal dos Direitos Humanos, da Revolução Francesa até os códigos penais modernos, que não cabe nessa discussão binária. 

Mas independente disso, volto ao tema do início: quando foi que nos tornamos tão agressivos, tão impacientes? Ou fomos sempre assim mesmo? 

De qualquer forma, eu li hoje um guia de um filósofo norueguês chamado Arne Næss que publicou uma obra chamada “Comunicação e Argumento – Elementos de semântica aplicada”, onde ele ofereceu um guia para a discussão pública, em 1966. Esse guia é composto de seis passos essenciais do que se deve evitar ao se debater algo em público. Foi impossível ler seus seis passos e deixar de refletir sobre a forma que discutimos nas redes sociais hoje:

  •  Evite irrelevâncias tendenciosas:

Por exemplo: ataques pessoais, alegações a respeito dos motivos do seu oponente, explicações sobre os argumentos, etc. 

Ou seja: chamar uma pessoa de nazista ou de petralha, dizer que alguém deve ter mau caráter por defender este ou aquele, dizer que a pessoa só diz isso porque não estudou/leu/pesquisou, etc.

  • Evitar referências desnecessárias a questões paralelas:

A discussão deve se ater – com perdão da redundância – ao que está sendo discutido. Exemplo: “Fulano promove a violência porque quer liberar armas.” – “Ah, ele propõe aumentar o salário mínimo.”.

  • Evitar ambiguidade tendenciosa:

Evite dizer algo genérico, que pode ser interpretado de várias formas. Tipo: “Nós, homens de bem, defendemos…”. “Homens de bem”, o que é isso? Só homens? Homens e mulheres? Como assim, de bem? Nós outros, por acaso, não somos de bem? 

  • Evite tentar colar no seu oponente algo que ele não afirmou ser/pensar:

Também conhecido como a “falácia do espantalho”, trata-se de refutar algo que o cidadão não afirmou e nem sequer defende. Tipo: “Você é a favor de bandido”, quando tudo que a pessoa disse é que não se deve torturar bandidos. Ou “não voto em Bolsonaro”. “Ah, mas você é a favor do PT”.

  • Evite declarações tendenciosas e incompletas sobre um fato:

Tipo quando o sujeito diz: “Fulano inaugurou o aeroporto de Salvador”, sem dizer que o aeroporto todo foi construído durante a gestão de Sicrano.

  • Evite tom tendencioso na apresentação:

Evitar ironias, sarcasmo, tom pejorativo, etc. Auto explicável, mas é o velho “Tá defendendo, deve ter roubado também.”. “Tá defendendo bandido? Leva pra casa.”, etc.

Acho que nossas discussões políticas melhorariam muito se observássemos essas regras. Não firmar uma conclusão sobre a parte contrária, mas procurar entender. As pessoas não são unifacetárias. Não é porque a pregação de Bolsonaro é nazista que as pessoas que votam nele necessariamente o serão – assim como quem vota em Haddad não necessariamente concorda ou aceita a corrupção praticada por membros do PT. Há nuances que, embora óbvias para quem se posiciona, não são tão óbvias assim para quem está do outro lado.

Não que não exista uma gente raivosa e irracional em cada lado. Mas, como disse, estou me referindo aos amigos, parentes, pessoas bacanas que, estranhamente, escolhem o inexplicável.

01/09/2018
por oculos
0 comentários

De ovos fritos

Há uma entrevista do professor de filosofia Clóvis de Barros Filho para o Jô Soares na qual ele define a felicidade como aquilo que você gostaria que durasse para sempre. Em sua ilustração, usa o episódio do sujeito que, morto de fome, pede uma pamonha e, ainda inebriado, pede uma outra que, ante a fome agora saciada, já não lhe proporciona mais o mesmo prazer.

Não sei se é isso que acontece comigo ao comer ovos fritos hoje em dia. Talvez seja mais em razão das experiências que os ovos fritos, ou ovos estrelados, como chamavam-nos a minha avó, me fazem recordar.

Ovos fritos, ou estrelados, é o que gosto de comer aos sábados, no café da manhã. Porém, por mais que os coma, não consigo sentir neles o sabor que tinham quando morava no Brasil. Não sei se é o pão daqui que não combina muito – é quase sempre doce demais – ou não sei se é o fato de que, agora, são apenas ovos fritos, ou estrelados, desacompanhados de experiências que o tempo não apaga mas que vêm sempre à mente.

Ovos fritos os comia várias vezes por semana, até que a professora de biologia, ao saber disso, recomendou-me que os comesse apenas uma ou duas vezes por semana, em razão do colesterol. Comia ovos fritos, ou estrelados, com um milk shake de mamão que aprendi a fazer com a mãe de um colega, às 5:30 da manhã, antes de ir pra escola, com medo de acordar meu avô com o barulho do liquidificador. 

Aliás, mais tarde, um outro colega me disse que, nos seus tempos de comunista, quando o comunismo era clandestino, em um desses acampamentos que tinham, um companheiro pediu à cozinheira que fritasse, ou estrelasse, oito ovos para ele. Ao ver a cena, um outro companheiro, médico, tentou-lhe dissuadir: “Companheiro, o organismo não metaboliza isso com facilidade, não é bom para a sua saúde.”, ao que o guloso ovófago respondeu: “Companheiro, sai pra lá com sua conversa pequeno-burguesa e me deixa comer meus ovos!”.

Ovos fritos, ou estrelados, comiam-se com as mãos, sem garfo nem faca, usando-se o pão como talher. Nunca gostei de pão com ovo frito dentro – o pedaço de pão tem que ser desprendido com o tamanho ideal para abocanhar a quantidade certa de ovo. Como comia aquele amigo engenheiro que consertava rádios em cuja casa aprendi tanto sobre radioamadorismo – parecia que ovos fritos comidos assim eram a melhor iguaria que se poderia comer. E tinha que ser o pão da Padaria Maravilhosa, aquele pão que se esfarelava todo ao abrir, onde meu avô comprou por décadas os “pães de sal” que alimentaram três gerações dos Medeiros.

Ou as tentativas de fazê-lo ao gosto do freguês: ao visitar um primo, fui fazer o café da manhã e ofereci fritar, ou estrelar, alguns ovos, e perguntei se aceitava: “depende”, disse ele. “Consegue fazer sem quebrar a gema, de forma que fique o ovo no formato ideal?”. Essa passou a ser uma daquelas coisas que eu passaria a vida tentando, com limitado sucesso. Lembro que nem o Maguila conseguiu quando foi convidado certa vez a cozinhar algo no programa de Ana Maria Braga, aliás, o único episódio que me recordo ter assistido e gostado. Ele só sabia fazer ovo frito e, como eu, mal.

Todas as outras formas de comer ovos fritos, isto é, estrelados, que não fossem assim, na mão e com pão como talher, foram apenas meros desvios, ainda que boas experiências: como aquela que o vizinho chinês me ensinou como sendo iguaria típica: bate-se o ovo cru, frita-se, joga-se cebolinha e come-se mergulhando-o no molho de soja, com palitinho. Ou sob o cuscuz, como um dia me mostrou o nobre Notório Norberto. Ou o clássico ovo-arroz-farinha, quando se está com fome mas não se quer comer nada. É o curinga do almoço do jovem-preguiçoso que todos fomos um dia.

Outra forma de comer ovo – não sei se frito ou cozido – é o descrito como refeição tipo PF típica de Belo Horizonte no romance “Hilda Furação, de Roberto Drummond: coal: cachaça, ovo, arroz e linguiça. 

Lembro quando o tio me oferecia ao lhe visitar: “Fulaaaana, frita uns ovos para Francinho…”. Ou quando visitava alguém que nos hospedou em Itabuna, que nos ofereceu ovos no café da manhã. Ou quando aprendi que se podia fritar ovos na manteiga, mas nunca me acostumei à idéia; sempre preferi o bom e velho olho de soja de guerra.

Não, não sei se é o pão daqui que não combina, ou o se é o sal daqui que não salga. Ou se não é nada disso: talvez o mundo dos ovos fritos, digo, estrelados, da minha infância já não exista. 

Como também já não existe o mundo em que acordar aos domingos significava correr para a cozinha para ver se a tia já estava a fazer lasanha, a fim de  “roubar” um pouco do molho para colocar em um pão francês com presunto e comer acompanhado de uma garrafa Pepsi de vidro. Mas esse é assunto para outro post. 

Sem o mesmo sabor, comer ovos fritos, ou estrelados, talvez seja só uma tentativa de reviver sabores e vivências passadas, e por isso mesmo não se consegue deles extrair algo além das boas memórias e um pouco mais de colesterol. 

29/05/2018
por oculos
4 Comentários

Noruega, imigração e etnocentrismo

Emigrar para a Noruega foi uma das escolhas mais felizes que tive. Eu me sinto bem aqui, considero-me integrado ao país e tive todas as oportunidades que poderia esperar. Claro, a situação atual do Brasil ajuda a não me arrepender da escolha, e os amigos e família ainda fazem falta. Além disso, tive meus percalços. Mas tem valido a pena.

Uma das poucas coisas que me fazem preocupar com a Noruega de hoje seja a percepção de que a cultura norueguesa seja etnocêntrica, e que a identidade do país seja tão ligada aos traços físicos da população que não haja espaço para quem pareça diferente. Esse é um problema que países formados pela imigração, como Brasil e Estados Unidos, talvez não tenham, ou não em tamanha escala.

Não, não é que a diversidade aqui não tenha espaço. Já virou até clichê dizer que se vêem mais negros na TV escandinava do que na brasileira. Pessoas descendentes de imigração recente são  frequentemente vistas como expoentes em suas profissões: nas artes, na medicina, no direito, enfim, em todo lado.

Mas há uma Noruega profunda, aquela distante de Oslo, que talvez não tenha assimilado tudo isso muito bem, e isso se reflete em manchetes como (links em norueguês):

Há outras questões, como a eterna discussão sobre ser ou não admitido hastear outra bandeira que não a norueguesa no dia 17 de maio, data cívica maior do país – volto a essa questão em algumas linhas.

Essas questões me fazem refletir um pouco sobre ser imigrante aqui. Até que ponto um imigrante é considerado bem-vindo, ou quais as suas limitações?

Quando vi a primeira manchete da lista acima, ficou claro uma coisa para mim: não existem, ou parecem não existir, diferentes tipos de imigrante. Enganei-me ao pensar que, para mim, toda essa discussão em relação a imigrantes não me dizia respeito: não sou muçulmano, não uso turbante, tenho formação universitária, trabalho e aprendi o idioma – tudo o que justamente parece faltar aos imigrantes quando se fala dos problemas da imigração. Mas não: quando se trata de discutir o problema da imigração, muitas vezes se colocam todos no mesmo saco. E é aí é que tudo fica confuso.

A segunda manchete revela o fato de parecer que o norueguês é tão ligado a certos estereótipos que certas coisas parecem inadmissíveis, como um imigrante usar a roupa nacional. Custa-me acreditar que em um país tão desenvolvido, tão generoso e tão progressista ainda se possa discutir um absurdo desses. E, pior: que mensagem isso manda aos imigrantes que se esforçam por se integrarem aqui? Terei eu que ter algum receio de que a minha filha possa usar a roupa do país que certamente ela considerará como seu?

A relação do norueguês com os estrangeiros é ambígua, marcada pela generosidade da maioria em nos acolher, mas também por certa paranóia em demarcar espaços que não cabem ao imigrante. Uma discussão sem sentido sobre se pode ou não portar-se uma bandeira de outro país que não a norueguesa ressurge todos os anos, como se fosse algum perigo. Até amigos meus dizem que, “olha, é o um dia especial, é o nosso dia, é o único dia que se pede algo assim”, como se a presença de algo estrangeiro fosse algo suportável durante todo o ano, mas em pelo menos um dia há a necessidade de se sentir só com seu nacionalismo. Fica até parecendo que a) existem legiões de estrangeiros doidos para saírem carregando bandeiras de seus países e b) o ato de carregar outra bandeira fosse alguma sabotagem ao dia nacional.

A Noruega conheceu a imigração relativamente recentemente. Não está acostumada à mistura. É curioso: todo o sistema tem algo de generoso com o imigrante: ensina-se às crianças muitas vezes em seus idiomas de origem para preservar suas culturas, há programas de incentivo à integração – um dos quais participei, há uma nítida paciência com o imigrante que esteja começando sua vida aqui. Claro, há racismo, há discriminação no mercado de trabalho, mas há também uma diversidade visível que não se vê, por exemplo, no Brasil ao se procurar pessoas negras em alguns setores.

A coisa é ainda um tabu: na Noruega, filhos de imigrantes muitas vezes acham ofensivo quando perguntados de onde são, porque querem ser aceitos como noruegueses, já que nasceram aqui e sempre viveram aqui, e por serem cidadãos noruegueses. Como se vê, essa distinção entre cidadania e etnia, aqui, parece tão problemática que cidadania não outorga o pertencimento que se quer ter – ser cidadão norueguês, assim, não basta para ser considerado norueguês.

Nesse estado de coisas, pergunto-me: qual o lugar do imigrante que não se vê em conflito com a cultura norueguesa, e que não se sente oprimido em relação à sua cultura original? Ou melhor, há algo intocável na Noruega para o norueguês-cidadão de outra etnia?

Esse problema eu não esperava em um país onde se celebra a constituição, e não os olhos azuis ou cabelos loiros – como marca de uma civilização.

17/05/2018
por oculos
0 comentários

O imigrante e as escolhas

Eu sou adepto do entendimento de que o imigrante precisa se adaptar ao novo país, preferencialmente sem se descaracterizar ou sem perder suas raízes. Mas reconheço que isso nem sempre é fácil. Não é sempre que se pode conciliar.

Filhos são uma dessas coisas que forçam o imigrante a ter que escolher qual a cultura dominante. Eu acho muito bom que se preserve a cultura brasileira, mas há momentos em que é difícil transmitir tudo que acho essencial transmitir para cultivar a idéia de brasilidade.

Hoje, por exemplo, é o dia nacional da Noruega. Todos vestidos com as roupas nacionais, até as crianças. Tendo filhos, há que integrá-los, até porque eles vão ter o sentimento de pertença ao país onde se encontram. E aí é quando você se toca que, por exemplo, esse lado da cultura brasileira não vai ser transmitido: dificilmente sua filha vai se vestir de baiana ou de indiazinha (noves fora o debate sobre apropriação cultural), não importa o quanto você queira preservar sua cultura.

Há que se fazer escolhas, o que é dolorido. Tipo, a língua – claro que vai ser transmitida, ainda que não em toda a sua riqueza – dificilmente conseguiria fazer minha filha vai compreender o idioma como é falado em sua forma doce, ao mesmo tempo dura, falada na zona rural do sudoeste baiano, ou mesmo a forma engraçada que se fala “conquistês” (pra quem é de Vitória da Conquista, é fácil identificar as frases que ninguém entenderia, como “quer quanto de posta?”). Música: claro que minha filha vai conhecer Elis Regina e Elomar, mas não vai sobrar espaço pra Belchior, infelizmente. Livros? Machado de Assis vai ser obrigatório – José de Alencar não, obrigado. Ela não vai conhecer, pro bem e pro mal, a TV brasileira, mas vai conhecer a Turma da Mônica. Assim, torno-me um filtro, justo eu, que não sou conhecido exatamente por ter bom gosto.

Vejo-me fazendo as escolhas por ela, com o coração apertado porque queria que ela se sentisse tão brasileira quanto eu, ao mesmo tempo que quero que se sinta 100% pertencente à Noruega, porque é esse país que a acolheu e que ela vai chamar de seu – a menos que eu consiga conquistar um espaço pro nosso país no seu coraçãozinho. O tempo dirá.

Um dia, deverei me naturalizar norueguês, pois agora é, também, o meu país, embora sempre com a certeza de que serei sempre e irremediavelmente brasileiro. Se o imigrante tem que se adaptar e renunciar um pouquinho coisas do lugar de onde vem, o filho do imigrante precisa aprender a amar as suas origens. Não sei o que é mais difícil.

06/04/2018
por oculos
0 comentários

A quem estiver feliz com a prisão do Lula

Caros amigos que estão felizes com a prisão do Lula:

Tudo bem?

Não, não acho que sois idiotas por estarem felizes com a prisão do Lula, nem por acharem que ele seja bandido, criminoso, safado, etc. Vai ver ele até é, e somos, nós outros, ingênuos de achar que ele seja inocente. Sim, da mesma forma que achávamos que vocês foram ingênuos ao achar que “Primeiro a Dilma, depois o resto”.

Mas enfim, eu os convido a algumas reflexões:

Vamos, primeiro, refletir no que temos em comum: eu não estou seguro que Lula é isento de culpa. Acho que qualquer político, em qualquer lugar do mundo, que recebe favores de empresários, merece nossa desconfiança. Para mim, não está claro exatamente qual foi o favor concreto que esses empresários receberam de Lula e que provam a corrupção, mas deixemos isso de lado agora.

Mas eu os convido a me encontrar no meio da ponte: vocês, de fato, creem na isenção do sistema que condenou Lula?

Vamos lá:

– Sérgio Moro, o juiz que o condenou, conduziu o presidente coercitivamente, num momento em que o país estava politicamente desestabilizado. Condução coercitiva, segundo a lei, existe quando alguém deixa de cumprir uma intimação. Você gostaria de ser conduzido coercitivamente pela polícia, sem antes ter sido intimado? Não acharia que o juiz teria algum interesse oculto nisso? Ou, no mínimo, que foi zeloso demais?

– O mesmo Sérgio Moro divulgou conversas telefônicas que sabia estarem protegidas pelo sigilo telefônico, em um momento que Lula seria nomeado ministro. Você gostaria que um juiz divulgasse conversa telefônica sua? Não acharia que o juiz estava com vontade pessoal de prejudicar um ato que favorecesse Lula?

Você pode até dizer que não vê motivos para a comparação, que você é “do bem”, que não precisa ir à justiça, mas você acha que a lei deve valer só para algumas pessoas? Se sim, paremos por aqui, acho que o diálogo não prospera, nossas posições são irreconciliáveis.

Sigamos:

– Os promotores constrangeram o investigado Lula, expondo-o inclusive com Powerpoints (ridicularizados desde o início), aproveitando uma opinião pública desiludida, sim, com a questão ética (embora, convenhamos, a raiva contra o PT não seja motivada só pela ética – ou falta dela).

– O presidente do Tribunal que julgou o recurso de Lula, antes da sessão, já havia dito que a sentença de Moro era irrepreensível, sem ter sequer lido as provas dos autos. Você gostaria que o presidente de um órgão julgador se manifestasse sobre seu processo, assim, em público, já dizendo que a sentença contra você, tecnicamente, está impecável?

– Você, que não gosta do Gilmar Mendes – assim como eu não gosto – gostou quando ele barrou a posse do Lula? Ou passou a desgostar dele de agora? E o Luis Barroso, indicado pela Dilma? Passou você a gostar dele de agora, ou já apreciava sua ténica quando o acusavam de entrar para salvar os petistas do mensalão? Você confia nos ministros que votaram contra o Lula? Desconfia nos que votaram contra? Pensa, realmente, que o mundo é assim, binário, que quem é pelo Lula é burro, idiota ou corrupto, e quem é contra é honesto, sério, probo?

Eu poderia falar mais: poderia falar sobre a Constituição Federal, que claramente veda prisão antes do trânsito em julgado dos processos. No decoro que se exige de juízes ao não comentarem seus casos, e da leniência com suas faltas processuais (ou porque Moro nunca foi punido pelos erros que cometeu?). Eu me sinto tentado a falar também sobre os outros políticos que têm sobre si suspeição bem maior que a do Lula (Temer? Aécio?), mas eu acho que não contribui para nossa discussão aqui, no meio da ponte. Fica a cargo de vossos sistemas de balanços morais, onde o Lula parece ter um peso maior que os outros.

Enfim, com isso tudo, vocês ainda acham que vale a pena estar feliz com a prisão resultante de um processo como esse? Não sentem vergonha? O homem foi o símbolo do país, respeitado em todo canto, chamado de “o cara mais popular do mundo” pelo cara mais popular do mundo, e, de repente, é preso? Não sei, provada a culpa do Lula, me sentiria decepcionado. Como fui decepcionado com o Temer, não só por ele ser corrupto, mas por ter traído sua companheira de chapa. Como me decepcionei com o Aécio Neves, que parecia ser algo novo, muito embora não alinhado ideologicamente comigo.

Eu estou com vergonha disso. Vergonha no que o país se tornou. Vergonha por ver essa regressão na alma do brasileiro, de gostar de sangue, de gostar de desgraça. De não ter serenidade nem para pensar no que é certo. Nos valores. Na importância da lei. E nem deixar de reconhecer que é uma tristeza ver alguém da estatura do Lula ser preso. Como ficaria eu triste se FHC fosse preso, apesar de não gostar dele.

Eu não desejo a vocês, se um dia precisarem da justiça, que tenham um processo igual ao do Lula. Eu fui advogado por 11 anos. Nesses anos, já representei contra dois magistrados. Os dois foram afastados pelos respectivos tribunais. Eu sei como meus clientes ficaram quando sentiram que o peso do Estado se voltava contra eles porque os juízes agiam parcialmente ou em violação das normas disciplinares. Até as partes contrárias ficaram constrangidas.

Nesse Brasil com tão pouca atenção ao rigor processual onde só o resultado interessa, sendo irrelevante se o procedimento foi justo, caminha-se agora a um país dividido, quando deveria estar unido por instituições confiáveis.

Ou você confiaria no Moro se ele não tivesse condenado o Lula? Sua fé está no Moro, ou nas provas? Basta esse teste mental. Com instituições sérias, ninguém nem se lembraria o nome do juiz. Hoje, a esperança do Brasil que aplaude Lula se resume na pessoa de um juiz que quebra as leis quando quer, em nome da própria moralidade.

Salve-se quem puder.