Noruega, imigração e etnocentrismo

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Emigrar para a Noruega foi uma das escolhas mais felizes que tive. Eu me sinto bem aqui, considero-me integrado ao país e tive todas as oportunidades que poderia esperar. Claro, a situação atual do Brasil ajuda a não me arrepender da escolha, e os amigos e família ainda fazem falta. Além disso, tive meus percalços. Mas tem valido a pena.

Uma das poucas coisas que me fazem preocupar com a Noruega de hoje seja a percepção de que a cultura norueguesa seja etnocêntrica, e que a identidade do país seja tão ligada aos traços físicos da população que não haja espaço para quem pareça diferente. Esse é um problema que países formados pela imigração, como Brasil e Estados Unidos, talvez não tenham, ou não em tamanha escala.

Não, não é que a diversidade aqui não tenha espaço. Já virou até clichê dizer que se vêem mais negros na TV escandinava do que na brasileira. Pessoas descendentes de imigração recente são  frequentemente vistas como expoentes em suas profissões: nas artes, na medicina, no direito, enfim, em todo lado.

Mas há uma Noruega profunda, aquela distante de Oslo, que talvez não tenha assimilado tudo isso muito bem, e isso se reflete em manchetes como (links em norueguês):

Há outras questões, como a eterna discussão sobre ser ou não admitido hastear outra bandeira que não a norueguesa no dia 17 de maio, data cívica maior do país – volto a essa questão em algumas linhas.

Essas questões me fazem refletir um pouco sobre ser imigrante aqui. Até que ponto um imigrante é considerado bem-vindo, ou quais as suas limitações?

Quando vi a primeira manchete da lista acima, ficou claro uma coisa para mim: não existem, ou parecem não existir, diferentes tipos de imigrante. Enganei-me ao pensar que, para mim, toda essa discussão em relação a imigrantes não me dizia respeito: não sou muçulmano, não uso turbante, tenho formação universitária, trabalho e aprendi o idioma – tudo o que justamente parece faltar aos imigrantes quando se fala dos problemas da imigração. Mas não: quando se trata de discutir o problema da imigração, muitas vezes se colocam todos no mesmo saco. E é aí é que tudo fica confuso.

A segunda manchete revela o fato de parecer que o norueguês é tão ligado a certos estereótipos que certas coisas parecem inadmissíveis, como um imigrante usar a roupa nacional. Custa-me acreditar que em um país tão desenvolvido, tão generoso e tão progressista ainda se possa discutir um absurdo desses. E, pior: que mensagem isso manda aos imigrantes que se esforçam por se integrarem aqui? Terei eu que ter algum receio de que a minha filha possa usar a roupa do país que certamente ela considerará como seu?

A relação do norueguês com os estrangeiros é ambígua, marcada pela generosidade da maioria em nos acolher, mas também por certa paranóia em demarcar espaços que não cabem ao imigrante. Uma discussão sem sentido sobre se pode ou não portar-se uma bandeira de outro país que não a norueguesa ressurge todos os anos, como se fosse algum perigo. Até amigos meus dizem que, “olha, é o um dia especial, é o nosso dia, é o único dia que se pede algo assim”, como se a presença de algo estrangeiro fosse algo suportável durante todo o ano, mas em pelo menos um dia há a necessidade de se sentir só com seu nacionalismo. Fica até parecendo que a) existem legiões de estrangeiros doidos para saírem carregando bandeiras de seus países e b) o ato de carregar outra bandeira fosse alguma sabotagem ao dia nacional.

A Noruega conheceu a imigração relativamente recentemente. Não está acostumada à mistura. É curioso: todo o sistema tem algo de generoso com o imigrante: ensina-se às crianças muitas vezes em seus idiomas de origem para preservar suas culturas, há programas de incentivo à integração – um dos quais participei, há uma nítida paciência com o imigrante que esteja começando sua vida aqui. Claro, há racismo, há discriminação no mercado de trabalho, mas há também uma diversidade visível que não se vê, por exemplo, no Brasil ao se procurar pessoas negras em alguns setores.

A coisa é ainda um tabu: na Noruega, filhos de imigrantes muitas vezes acham ofensivo quando perguntados de onde são, porque querem ser aceitos como noruegueses, já que nasceram aqui e sempre viveram aqui, e por serem cidadãos noruegueses. Como se vê, essa distinção entre cidadania e etnia, aqui, parece tão problemática que cidadania não outorga o pertencimento que se quer ter – ser cidadão norueguês, assim, não basta para ser considerado norueguês.

Nesse estado de coisas, pergunto-me: qual o lugar do imigrante que não se vê em conflito com a cultura norueguesa, e que não se sente oprimido em relação à sua cultura original? Ou melhor, há algo intocável na Noruega para o norueguês-cidadão de outra etnia?

Esse problema eu não esperava em um país onde se celebra a constituição, e não os olhos azuis ou cabelos loiros – como marca de uma civilização.

3 Comments

  1. test

  2. Oi do Noruegano que sei falar português 🙂 Fui interessante de ler a sua experiência migrar pra esse país.

  3. Obrigado, Henrik! 🙂

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