Do Brasil bipolar

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O brasileiro sempre teve uma imagem bipolar do Brasil e de si próprio. Ora somos o pior povo do mundo – o famoso complexo de vira-lata, onde, apesar de ser um país rico e cheio de potencial, sem terremotos, tsunamis ou outros desastres naturais, não conseguimos nos desenvolver. Ora somos um país formidável, exemplo para o mundo de boa convivência entre povos diferentes, cordial e solidário.

Esse Brasil de hoje em dia, de bater em imigrante, de xingar as pessoas que discordam de opiniões políticas, de perseguir jornalista – esse, para mim, é novo. Nós, brasileiros, nunca nos vimos como xenófobos ou hidrófobos. Pois parece que, se não nos chegam os desastres naturais, chegam esses outros desastres.

Essa divisão do Brasil entre apoiadores de Bolsonaro de um lado e aqueles contrários do outro gera muito barulho, mas talvez seja necessária alguma reflexão. Quando eu vejo amigos ou conhecidos dizendo, por exemplo, que irão deletar apoiadores de Jair Bolsonaro de sua lista de amigos no Facebook, eu fico me perguntando se essa pessoa não tem aquele parente dócil, gente boa, pessoa do bem, mesmo, mas que ainda assim votará em Bolsonaro. Imagino que todos os têm. 

Eu conheço os argumentos – não de todo sem sentido – de que: premissa número um: Bolsonaro produz seus disparates, de cunho nazista – é preconceituoso, racista, homofóbico, etc.; premissa número dois: sujeito vota em Bolsonaro. Conclusão: sujeito também é preconceituoso, racista e homofóbico.

É tentadora a tese. Longe de mim querer ser condescendente com algo tão sério. Não é isso. Eu costumo achar que a verdade normalmente nunca é tão fácil ou simples. Quem vota no PT, por exemplo, como eu cogito votar, não raramente precisa produzir um raciocínio bem sofisticado para justificar o seu voto: não, não se trata de Lula ser ou não ser corrupto, se trata do sistema que o condenou ter sido parcial. Não, não se trata de Dilma ter sido ruim, se trata de uma conspiração (?) do Congresso contra ela para tomar o poder a inviabilizar. Enfim, perceberam onde quero chegar. Eu acho que se trata muito mais de conversar.

Eu não acho que todo eleitor de Bolsonaro seja racista. Perguntei a uma amiga porque votaria em Bolsonaro. Sua resposta foi que votaria nele em razão da segurança. Há um discurso de Bolsonaro que atrai essas pessoas e, convenhamos, para a tal classe média, que consegue manter a cabeça acima d’água, é a segurança a maior mazela do Brasil hoje. Não, não são homofobias. Outra, vota por causa da “família” tradicional, a quem o PT teria atacado, mas que discorda de distribuir armas. 

O problema todo é que direitos humanos foram uma conquista lenta, ainda não completada. Portanto, na cabeça de alguém que não refletiu sobre os processos históricos, direitos humanos é “dar mole pra bandido”. Entre a realidade de um século atrás, onde o abuso do Estado poderia punir qualquer um, e os direitos e garantias existentes nas constituições democráticas, foram muitas lutas e lentas conquistas. Mas essa história não pode ser resumida a contento em uma discussão de Facebook onde se quer apenas dizer que não, não torturar não é ser legal com o bandido. Há todo um processo, de Lombroso à Declaração Universal dos Direitos Humanos, da Revolução Francesa até os códigos penais modernos, que não cabe nessa discussão binária. 

Mas independente disso, volto ao tema do início: quando foi que nos tornamos tão agressivos, tão impacientes? Ou fomos sempre assim mesmo? 

De qualquer forma, eu li hoje um guia de um filósofo norueguês chamado Arne Næss que publicou uma obra chamada “Comunicação e Argumento – Elementos de semântica aplicada”, onde ele ofereceu um guia para a discussão pública, em 1966. Esse guia é composto de seis passos essenciais do que se deve evitar ao se debater algo em público. Foi impossível ler seus seis passos e deixar de refletir sobre a forma que discutimos nas redes sociais hoje:

  •  Evite irrelevâncias tendenciosas:

Por exemplo: ataques pessoais, alegações a respeito dos motivos do seu oponente, explicações sobre os argumentos, etc. 

Ou seja: chamar uma pessoa de nazista ou de petralha, dizer que alguém deve ter mau caráter por defender este ou aquele, dizer que a pessoa só diz isso porque não estudou/leu/pesquisou, etc.

  • Evitar referências desnecessárias a questões paralelas:

A discussão deve se ater – com perdão da redundância – ao que está sendo discutido. Exemplo: “Fulano promove a violência porque quer liberar armas.” – “Ah, ele propõe aumentar o salário mínimo.”.

  • Evitar ambiguidade tendenciosa:

Evite dizer algo genérico, que pode ser interpretado de várias formas. Tipo: “Nós, homens de bem, defendemos…”. “Homens de bem”, o que é isso? Só homens? Homens e mulheres? Como assim, de bem? Nós outros, por acaso, não somos de bem? 

  • Evite tentar colar no seu oponente algo que ele não afirmou ser/pensar:

Também conhecido como a “falácia do espantalho”, trata-se de refutar algo que o cidadão não afirmou e nem sequer defende. Tipo: “Você é a favor de bandido”, quando tudo que a pessoa disse é que não se deve torturar bandidos. Ou “não voto em Bolsonaro”. “Ah, mas você é a favor do PT”.

  • Evite declarações tendenciosas e incompletas sobre um fato:

Tipo quando o sujeito diz: “Fulano inaugurou o aeroporto de Salvador”, sem dizer que o aeroporto todo foi construído durante a gestão de Sicrano.

  • Evite tom tendencioso na apresentação:

Evitar ironias, sarcasmo, tom pejorativo, etc. Auto explicável, mas é o velho “Tá defendendo, deve ter roubado também.”. “Tá defendendo bandido? Leva pra casa.”, etc.

Acho que nossas discussões políticas melhorariam muito se observássemos essas regras. Não firmar uma conclusão sobre a parte contrária, mas procurar entender. As pessoas não são unifacetárias. Não é porque a pregação de Bolsonaro é nazista que as pessoas que votam nele necessariamente o serão – assim como quem vota em Haddad não necessariamente concorda ou aceita a corrupção praticada por membros do PT. Há nuances que, embora óbvias para quem se posiciona, não são tão óbvias assim para quem está do outro lado.

Não que não exista uma gente raivosa e irracional em cada lado. Mas, como disse, estou me referindo aos amigos, parentes, pessoas bacanas que, estranhamente, escolhem o inexplicável.

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