Contra o carnaval

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Todo ano é a mesma história: escrevo alguma coisa contra o carnaval ou contra micareta.

E sempre faço a mesma observação: eu não gosto de folia, não gosto de festa, sou bem da paz.

Mas me pergunto se merecemos festa. Não sou demagogo em dizer coisas do tipo “Mas o Governo gasta tanto com publicidade, gasta tanto com isso, gasta tanto com aquilo, porque não tira as crianças das ruas?”. Enfim, se o governo gasta dinheiro assim ou assado é porque houve um orçamento prévio aprovado por deputados/vereadores que o autorizou a gastar com X ou com Y. Ninguém votaria um orçamento determinando gastar 100% da verba com uma única despesa.

Mas, Carnaval? Festa? 5 dias de farra?

Vem cá: será que merecemos isso? Será que nossa saúde vai bem? Será que precisamos de catarse para esquecer o que se passa a nossa volta? Será que precisamos desesperadamente tentar nos convencer de que somos o povo mais feliz da terra, apesar das mazelas que colocamos debaixo do tapete?

Será que nossa falta de solidariedade com o próximo é tanta que quando os governantes falam em falta de dinheiro para a saúde, para a educação, seja lá para o que for, nunca nos lembramos dos milhões usados para a folia?

Sim, alguém vai sempre dizer que a festa gera empregos, movimenta a economia, traz turistas, gera impostos, etc. Mas, ainda que os números provem o contrário, eis aqui meu comentário rabugento sobre o assunto:

– é antiético jogar dinheiro público em festa para as pessoas se divertirem enquanto uma choldra padece condições de vida inaceitáveis;

– é antiético sair para uma festa na rua pulando, sendo observado por pessoas que não podem ostentar a mesma alegria;

– é antiético segregar o espaço público, loteando-o para empresários, e ainda fingir que a festa é democrática.

O carnaval deveria celebrar a vida. Deveria haver celebração de superação de nossa condição de país desigual. Festa porque todas as nossas crianças têm escola e comida em casa. E não um momento-entorpecente destinado à celebração da exclusão.

E olha que nem comecei a falar da música, algo que nos envergonha. Ou será que ao viajar para fora do país alguém vai pegar um CD que contenha a faixa “Rebolation” e dizer: “Veja, é do meu País! É a minha cultura! É a nossa música! Veja como é alegre!”.

Aos que gostam, aproveitem a festa. Divirtam-se. Na quarta-feira, o Brasil espera vocês de braços abertos. A pior ressaca é ver que a alegria de ser brasileiro não dura para sempre. Para alguns, dura 5 dias.

Autor: francis

the guy who writes here... :D

10 Comments

  1. Concordo plenamente.

    Acrescento também o seguinte: o carnaval afronta aquilo que defendemos durante o resto do ano. Como? Experimenta sair pelado, com apenas um tapa sexo, fora desta data! Pois aconteceu há algum tempo atrás, com um gringo, no Rio. Ele foi preso porque estava pelado, na praia. O delegado questionou: ‘Mas, gringo, que história é esta de andar pelado em meu país?’. O gringo: ‘Ué, mas aqui não é o país das mulatas peladas, sambando com tapa-sexos ou pinturas, diante da TV, em rede nacional? Se você me prender, como então estão soltos os carnavalescos?’. Bem, pelo que li na época, o cara foi solto. Ou seja, o pudor e a decência só vigoram durante o resto do ano.

    Também durante o carnaval, os trios tocam músicas em volumes muito acima do permitido pela lei do resto do ano e durante os horários que durante o resto do ano são protegidos pela lei do silêncio (aquela do limite de decibéis após as 22 horas, até as 6 da manhã). Ora, a lei só deve vigorar durante o resto do ano, porque se alguém de Salvador ligar para a secretaria que fiscaliza isto lá e disser: ‘Cara, vem aqui e apreende um carro maluco, com um som muito louco, tocando porqueira no meio da noite, em frente a minha casa. É um tal de trio elétrico…’. O funcionário vai rir e desligar na cara.

    Finalmente, durante o carnaval, o consumo de bebidas alcoólicas é permitido para qualquer um, já que é virtualmente impossível controlar isto durante uma aglomeração tão grande de pessoas. Ou seja, adolescentes consomem álcool sob os olhares dos policiais que fazem a ‘segurança’ da festa. Mais uma lei revogada temporariamente durante o carnaval.

    Para mim, o carnaval é o sintoma de um país falido, moral e culturalmente. Somente seremos grandes, quando superarmos esta maldição.

  2. Em tempo: uma prefeita teve a coragem de decretar uma lei, proibindo o barulho na cidade durante o carnaval.

    http://www.nominuto.com/noticias/cidades/prefeita-de-martins-explica-lei-que-proibe-carnaval/46989/

    Se não estou equivocado, esta lei é redundante, pois já existem outras leis que poderiam ser usadas para coibir o barulho durante o carnaval.

    Estou errado?

  3. Não, não está, existe lei de posturas em boa parte das cidades, mas essas situações são tidas como excepcionais, infelizmente.

  4. Transformaram o que deveria ser considerado umas das maiores vergonhas nacionais em um produto altamente lucrativo. E “o povo”?… panem et circenses? Ao que parece somente o circo já funciona.

  5. caro óculos:
    Como sempre os seus textos são dignos de aplausos (estou colecionando a maioria deles nos meus arquivos de textos favoritos). O carnaval tem características próprias e regionais, indo do frevo ao trio-elétrico, das escolas de samba aos bailes de carnaval – as pessoas querem se divertirem, outras querem apenas se projetarem e outras ganharem dinheiro. A diversão pode ser diferente para cada pessoas, mas em todos os locais e regiões a uma única coisa em comum é a violência. Eu também não gosto de festa nem de folia. Gosto mesmo é de me divertir, isso é diferente. Não precisamos de carnaval para esse fim. Infelizmente, nesta época, muitas famílias continuarão perdendo entes queridos, muitas mortes ocorrendo por conta das balas perdidas e outras bem direcionadas, acidentes provocados pelo consumo de álcool e drogas e tantas outras misérias que acontecem nesta época. Precisamos de outras festas – aquelas festas onde se fosse possível comemoramos a diminuição da pobreza, a punição de algum político desonesto, o acesso à educação, à saúde e tantos outros benefícios sociais negados ao nosso povo por conta de tantos gastos desnecessários.
    Um abraço e um “bom carnaval” (sem ironias, amigo – rsrs).

  6. Olá trenzinho!!
    Vim visitar seu blog pela primeira vez, admito com vergonha. A internet aqui é meio mal, mas não posso usar isso como desculpa, enfim… rsrrs!
    Hoje mesmo tentei descrever carnaval pra uns amigos aqui e não consegui passar boas impressões. Além de tudo o que você já falou, o que mais me enoja é a libertinagem da festa. É um desvairio grupal, maquiado de festa e alegria. Enfim…
    Parabéns pelo blog, depois vou ler os outros textos e me manter informada do mundo tecnológico, embora não vá entender tanto os comentários informáticos, eheheheh…
    Beijos!

  7. Ah, eu confesso que, apesar de saber todos os contras, eu ainda acho que ele deve existir. As vezes eu acho que dizer que as pessoas não podem pular carnaval porque tem outras pessoas que não podem ter a mesma felicidade, seria como dizer que a gente não pode rir todo dia porque aquelas pessoas continuam não podendo ter a mesma felicidade.
    Eu acho que a discussão da validez de uma festa como essa fica bem restrita a quem tem condição de negá-la, sabe? Acho que as pessoas de baixa renda, as que são segregadas, provavelmente diriam “não, como assim? tem que ter carnaval mesmo!” e talvez nem fosse por falta do conhecimento de como o dinheiro pode ser usado ou o que quer que seja, mas pelo sentimento de que há uma necessidade de uma válvula de escape.
    Saber que existe uma mansão, ainda que eu não possa visitá-la ou morar nela, ao menos me motiva a tentar crescer pra poder fazer com que se torne uma realidade palpável; ou, no mínimo, me dá direito a um sonho.
    Mas talvez seja só inocência demais… Ou porque talvez eu, que nem gosto tanto de carnaval assim e que geralmente nunca tenho direito a nenhuma festa carnavalesca, pelo menos gosto de saber que ele existe. Deslumbra, acalma, conforta… Sei lá.

  8. Emi,
    Bom, acho que concordamos em discordar. Acho que sua analogia com a mansão, bem engenhosa, por sinal, é diferente: o dono da mansão não vem à rua para mim dizer: “olhe, eu sou rico, eu tenho muito dinheiro, não preciso viver no seu moquifozinho”. Não acho que pessoas saindo na rua se esbaldando (a preços imensos) em uma festa antidemocrática enquanto que, nos meios-fios, desafortunados ficam a olhar, seja exatamente meu ideal. Confesso que isso tudo me perturba, me desconserta, sei lá… 😉

  9. Não dou bola pra carnaval, mas algo com a qual não compactuo são as tais escolas de samba do RJ/SP.

    É a festa da bandidagem, uma ode à contravenção, aos bicheiros, aos traficantes, à lavagem de dinheiro. Todo mundo se esquece que tais escolas são máfias, pois só o que vale é o dinheiro que vem da mídia, do turismo, dos grandes cervejeiros e governos diversos.

    Esse ano teve mais. Botaram uma menina de 7 anos de madrinha de alguma coisa na avenida. Será que ela consegue entender o que está fazendo no meio de tanta gente seminua? E como os pais deixam, sabendo que do outro lado da telinha há pedófilos p*nheteiros se deleitando?

    E o que dizer da elite supostamente esclarecida, que acha tudo “arte”? Pior que nem isso. É tosco. Os temas tem sempre algum rei ou rainha da antiguidade, os carros alegóricos são feios, as acrobacias ensaiadas são bregas, os cordões de strass enfiados na bunda não são fantasia de alta-costura e os samba-enredos são ruins de doer, iguaizinhos ano após ano. Eca!

    Não suporto essa hipocrisia.

    Ah, alguém avisou a Madonna?

  10. Biaaaaaaaaaaaa, falou tudo!!!!
    E isso porque ainda nem começamos a falar da Bahia, com seu “rebolation”, suas músicas onomatopéicas, etc…

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