O gigante acordou… e agora?

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O Brasil parece viver uma catarse coletiva. Acordamos. É bom que seja assim. É bom que as pessoas resolvam fazer os governantes sentirem medo. Acho que ninguém perde por isso.

Mas e agora? Nem vou me atrever a dar palpite no que causou isso e pra onde vai o movimento, quando nem mesmo grandes e experientes cientistas políticos conseguiram ainda entender isso tudo.

Eu penso da seguinte forma: a fase de “não temos uma causa específica”, ou “não nos faltam causas” vai acabar. Não me entenda mal: eu concordo com essas frases, e concordo com a saída às ruas, com a mobilização social. Tudo é melhor que a apatia.

Mas isso não servirá a médio-longo prazo. Isso tem o risco de despolitizar, de não criar uma consciência coletiva responsável. E pode ter resultados desastrosos.

Por exemplo: vi que uma das propostas veiculadas supostamente pelo Annonymous pedia a punição da corrupção como crime hediondo. A proposta, bem-intencionada, não resiste a pequenas indagações: qual corrupção? Passiva? Ativa? Peculato? Falsidade ideológica? Prevaricação? Enfim, será que um deputado que desvia milhões deve ter a mesma punição de um servidor público de um cartório que cobra uns R$10,00 para agilizar um documento rapidinho? Claro, as duas condutas são reprováveis, mas igualá-las abriria uma porta para virarmos um desses países fundamentalistas do Oriente Médio. Daí pra cortar a mão de ladrão em praça pública é um pulo.

Vi que as pessoas concordam muito nas causas genéricas, mas começam a discordar quando são mais pragmáticas. Por exemplo: o projeto conhecido por “cura gay”. Basta ir aos detalhes que as pessoas se dividem. É verdade que o movimento começou e ganhou força com uma causa específica e clara: redução em 20 centavos na passagem do ônibus, o que contradiz o que eu acabo de dizer. Mas convenhamos que é difícil ser contra redução de tarifa, não?

Portanto, penso que é preciso ter causas, sim, mas causas responsáveis.

Além de causas, penso que a única forma de manter a mobilização passa por duas pequenas mudanças de atitude:

A primeira, é começar a fazer parte da discussão política. Filiar-se a um partido político é uma forma de se manter engajado, de aprender a construção de idéias e a defender pontos de vistas. Mas é claro que tem pessoas que preferem engajar-se fora das instituições (principalmente os mais à esquerda). Portanto, que o engajamento também se dê nos movimentos sociais. É importante ver que o Movimento do Passe Livre conquistou respeito por seu discurso coerente, sério e depurado com anos de luta.

É claro que esse aprendizado traz o risco da acomodação ao status quo, que acredito que foi o que aconteceu ao PT, tanto tempo no poder. Mas é necessário conhecer política pública, modelos de governança, e, por que não, pontos de vista ideológicos.

O segundo, mais transcedental, me foi apontado por dois amigos no Facebook (você, carioca sangue-bom, e você, pernambucana arretada) durante as discussões sobre o protesto: a mudança de postura diante das más-práticas. A mudança de si mesmo. O abandono do jeitinho. A opção pela conduta ética diária. A visão clara de que as coisas devem funcionar bem pra todos, e não como resultado de um jeitinho individualista (propinas, agrados, “quem-indica”, etc.).

Que nossa catarse continue, mas que as mudanças que estamos propondo venham pra ficar, e que nos orgulhemos não de um dia termos acordado, mas sim de que passamos a construir nosso destino nós mesmos, com nossa participação ativa no cenário político.

UPDATE: sempre bom ler o blog do Dr. Ruy Medeiros (a quem não sou digno de chamar de tio… 😉 ). Ele fez uma advertência importante nos últimos parágrafos de um post em seu blog.

Autor: oculos

the guy who writes here... :D

2 Comments

  1. Francis,
    Quando dizemos que o Brasil acordou ou que as manifestações podem correr o risco de se diluir, tamanha a quantidade de demandas que parecem emergir nos últimos dias, estamos falando, antes de mais nada, de percepções.
    E percepções são construídas por nós a partir de dados, dados esses mediados por agentes que se colocam entre nós e a realidade. (E não poderia ser de outro modo dada a complexidade da realidade, se quisermos montar um quadro amplo dela, e nela interferir).
    Pergunto-me até que ponto esses agentes – normalmente, os tradicionais veículos de informação a que recorremos – não estão interpretando excessivamente a realidade, interferindo talvez um pouco – ou muito – além do que deviam ao nos apresentar um certo diagnóstico provisório dessa realidade.
    Não deixe de assistir a ótima entrevista dada por dois integrantes do movimento Passe Livre, o grande catalisador do está acontecendo nos últimos dias no nosso país.
    Quero ressaltar, sobretudo, a afirmação dos entrevistados de o que se vê hoje não é fruto de um fenômeno súbito, mas de um trabalho incansável feito por eles, ao longo de quase uma década, e sobre o qual só nos damos conta hoje – isso se não nos contentarmos apenas com a interpretação dos fatos feita pelos tais agentes tradicionais da mídia.
    O link para a primeira parte da entrevista é este: http://www.youtube.com/watch?v=BYASRwXiQ4g
    Saudações tropicais

  2. Meu caro Gustavo,

    Muito bom ler seu comentário!
    Sim, me inspirei justamente no MPL (e na boa entrevista do Roda Viva) ao escrever o texto. O diálogo e a luta constante são essenciais para que o sentido de causa não se perca nem se confunda com uma efeméride qualquer. E, de fato: existe muita mobilização social no Brasil, mas talvez o barulho dessa catarse, ou melhor, a catarse visível nos centros das cidades, causou a surpresa, o que não quer dizer que essa luta não se faça sentir em outros espaços que não aqueles alcançados pela mídia.
    Grande abraço!

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